O diabetes mellitus é uma doença caracterizada pela alteração do metabolismo da glicose que, quando não controlada durante longos períodos, pode causar complicações nos rins, olhos e membros inferiores. Além destas complicações os pacientes diabéticos apresentam maior risco para as doenças dos vasos do coração (infarto) e do cérebro (derrame).
Hoje em dia se sabe que o diabetes tipo 2 não acontece de uma hora para outra e as mudanças na glicose demoram muito tempo até atingir os valores usados para classificar uma pessoa como portadora da doença. Existem fortes evidências de que o diabetes tipo 2 pode ser prevenido ou ter seu início retardado e os indivíduos com risco para desenvolver diabetes podem ser facilmente identificados.
Como o próprio termo esclarece o pré-diabetes é uma condição intermediária entre a normalidade e o diabetes tipo 2. Esta denominação que esteve fora de moda durante muitos anos indica que as pessoas com este diagnóstico apresentam uma chance maior de desenvolver diabetes no futuro. Isso não significa que todas as pessoas que têm pré-diabetes vão evoluir para uma manifestação franca de diabetes. Existem, inclusive, medidas que podem ser tomadas e que diminuem bastante esta chance.
Esta situação não é exclusiva de adultos. Com os índices alarmantes de obesidade infantil estima-se que a freqüência do pré-diabetes venha aumentando em crianças e adolescentes. Também para elas a mudança de estilo de vida com alimentação mais saudável e exercícios pode prevenir a evolução para diabetes.
A glicose é uma substância importante para o fornecimento de energia para as células. A fonte de glicose normalmente vem da alimentação e das reservas no fígado e músculos. Os hidratos de carbono da dieta, contidos no pão, arroz, massas, batata e outros alimentos, são transformados em glicose durante a digestão e absorvidos para o sangue. Pelo sangue a glicose é levada para as células do corpo onde ela entra com a ajuda de um hormônio chamado de insulina.
A entrada da glicose nas células proporciona três situações benéficas para o organismo: primeiro diminui os níveis de glicose no sangue, segundo oferece uma fonte de energia para as atividades das células e terceiro permite que alguns locais armazenem esta glicose para as situações de necessidade durante os períodos entre as alimentações.
Quando uma pessoa tem pré-diabetes este mecanismo não funciona adequadamente. A insulina não consegue agir direito no transporte da glicose para dentro das células e uma certa quantidade de glicose vai se acumulando no sangue. Ainda não se conhecem completamente as razões pelas quais as células passam a ter resistência à ação da insulina, mas fatores como o excesso de peso, a falta de exercícios físicos e a quantidade de gordura no corpo desempenham um papel importante.
Alguns fatores são considerados de risco tanto para diabetes quanto para pré-diabetes, entre eles história familiar de diabetes tipo 2, idade superior a 45 anos, excesso de peso, sedentarismo, pressão alta e alterações do colesterol e triglicérides. Nas mulheres além dos riscos citados existe uma probabilidade maior de pré-diabetes nas que tiveram diabetes durante a gestação, parto de filho com mais de 4 kg ou uma doença chamada de síndrome dos ovários policísticos.
Como a doença não apresenta sintomas, para descobrir se uma pessoa tem pré-diabetes é necessário realizar exames laboratoriais da glicose. Pode ser uma dosagem de glicose após 8 horas em jejum ou um teste em que a pessoa toma uma certa quantidade de glicose e avalia como o organismo reage (verifica o nível em que a glicose alcança duas horas após esta sobrecarga). Este último exame é chamado de curva glicêmica, sobrecarga de glicose ou teste de tolerância oral à glicose.
Não existe uma superioridade entre os dois tipos de exame e as indicações para cada um deles deve ser analisada em conjunto com o médico assistente. De uma forma geral a realização da glicose em jejum é considerada mais simples pelas pessoas, mas existem situações que só podem ser esclarecidas com a realização do teste de sobrecarga.
Uma pessoa tem pré-diabetes quando glicemia em jejum encontra-se entre 100 e 125 mg/dl e/ou quando o valor de glicose na segunda hora do teste de sobrecarga oral a glicose está entre 140 e 199 mg/dl. A proporção das pessoas que progride para diabetes é semelhante tanto em grupos de indivíduos que têm glicemia de jejum alterada quanto os que apresentam elevação da glicose na segunda hora do teste oral.
Estudos recentes mostram que modificações no estilo de vida, tais como redução do peso entre 5 a 7% (naqueles indivíduos com excesso de peso) e atividade física regular (150 minutos de atividade por semana ou 30 minutos por dia) têm forte efeito reduzindo a taxa de novos casos de diabetes em mais de 50% em um período de dois a cinco anos de acompanhamento.
Desta forma é possível modificar a evolução para diabetes com hábitos saudáveis e sem um esforço exagerado. Informe-se com seu médico qual a sua situação de risco e quais as medidas mais adequadas para o acompanhamento.
Dr. Odilon Denarin
Doutor em medicina pela Unifesp
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