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Dr. Eduardo Guimarões Houmeaux de Moura
Está associado ao uso abusivo do álcool e também ao hábito de fumar. O câncer do esôfago - particularmente o tipo que atinge a estrutura microscópica do órgão, carcinoma epidermóide de esôfago (CEC) - é um tumor maligno com prevalência mundial de três a 19 casos por 100 mil habitantes. No Brasil, esta prevalência é de aproximadamente 8,7 casos por 100 mil habitantes, com predominância no sexo masculino (5:1). A faixa etária mais freqüentemente acometida por esse carcinoma é de 50 a 60 anos de vida.
O prognóstico desta lesão está intimamente relacionado ao estágio no qual se oferece o tratamento especializado. O carcinoma epidermóide alcança as maiores incidências mundiais em determinadas áreas da República Popular da China (150 casos/100 mil habitantes). Neste país, tem-se realizado, há mais de 30 anos, o rastreamento da população por meio do exame cipatológico que analisa as células do esôfago, em indivíduos assintomáticos e maiores de 20 anos de idade. Quando existe a suspeita, indica-se o exame endoscópico. Com o acompanhamento periódico dos indivíduos portadores de pequenos carcinomas no interior da pele, tem-se demonstrado que essas lesões apresentam caráter evolutivo para lesões avançadas e invasivas, ao longo de cinco a 10 anos. Indivíduos tratados com esofagectomia (remoção do esôfago) em fase precoce têm sobrevida, em cinco anos, entre 40% e 90%, o que contrasta enormemente com os 5% a 10% de sobrevida encontrada na literatura ocidental.
No Serviço de Endoscopia Gastrointestinal e no Departamento de Gastroenterologia do HC-FMUSP, foram realizados três estudos que relacionam a videoendoscopia (exame de endoscopia) com o uso da solução de lugol a 2,5% (corante empregado para melhor avaliar o esôfago) e a detecção de CEC do esôfago em três diferentes grupos de risco: estenose cáustica (ingestão de agente corrosivo - soda cáustica), megaesôfago chagásico avançado e portadores de tumores de cabeça e pescoço. No primeiro grupo, em 37 pacientes seguidos anualmente por seis anos, foram identificados nove portadores de CEC (24,3%), sendo seis em estádio precoce. No caso dos portadores de megaesôfago, diagnosticou-se uma neoplasia maligna intra-epitelial (1,6%) entre 64 pacientes durante o seguimento. Finalmente, em 79 indivíduos portadores de CEC de cabeça e pescoço, foram identificados oito casos (10,1%) de carcinoma esofágico, sendo seis deles precoces. Fica clara a importância do seguimento contínuo destes pacientes, de preferência pela esofagoscopia com auxílio da cromoscopia, com solução de lugol a 2,5%.
O esôfago de Barrett (substituição do tecido que recobre o esôfago por tecido semelhante ao do estômago) é a lesão pré-neoplásica que mais freqüentemente temos diagnosticado. A prevalência de adenocarcinoma (câncer do esôfago de Barrett) na literatura é de aproximadamente 13,9% e em nosso serviço, de 9,1%. As discretas irregularidades na superfície do esôfago de Barrett, assim como depressões ou elevações mínimas, devem ser valorizadas e biopsiadas. O uso de corantes, como o índigo-carmim ou o azul-de-metileno, pode ser útil na intenção de valorizar estas irregularidades neoplásicas.
Embora muitos destes tumores possam passar despercebidos ou serem achados acidentais de exames, a queixa clínica de disfagia (dificuldade de ingerir o alimento) de curto espaço de tempo e emagrecimento são as manifestações mais freqüentes. Dor e desconforto retroesternal são menos freqüentes. Já a hemorragia ocorre em menos de 1% dos pacientes, e a fístula com a via respiratória, nos casos mais avançados, está localizada, geralmente, no esôfago torácico médio.
Os tumores avançados do esôfago podem apresentar crescimento tipo vegetante, ulcerado ou infiltrativo. Ocupando parcial ou totalmente a circunferência do órgão, podem se estender por poucos centímetros ou envolvê-lo em sua totalidade. A consistência pode variar de tecido mole a endurecido. A superfície sempre é irregular, exceto nas áreas de infiltração submucosa. O tecido é friável e pode estar associado à fístula respiratória (trajeto anômalo entre o esôfago e a traquéia), quando a lesão tumoral situa-se em segmento torácico médio.
A grande maioria dos pacientes com câncer do esôfago se apresenta com tumor localmente avançado ou doença metastática (disseminação do câncer) incurável. Para esses indivíduos, o objetivo do tratamento é aliviar a disfagia, a odinofagia (dor à deglutição) e restaurar a alimentação oral.
Uma vez que a sobrevida é, em geral, inferior a seis meses, a terapêutica paliativa ideal deve aliviar a disfagia rapidamente, de maneira duradoura, com baixa morbidade e mortalidade1.
Vários são os métodos de paliação endoscópica: necrose química, dilatação, coagulação com bicap, tratamento por Nd-YAG laser, terapia fotodinâmica (PTD) e intubação por próteses plásticas ou metálicas auto-expansíveis. A escolha dependerá das vantagens e desvantagens frente às características daquele tumor, como também do estado clínico do paciente.
Neste sentido a melhor forma de tratar um câncer do esôfago é a prevenção, evitando o consumo de tabaco e álcool e realizando exames de rastreamento (endoscopia digestiva alta) para grupos de risco.
Eduardo Guimarões Houmeaux de Moura MédicoSupervisor do Serviço de Endoscopia Gastrointestinal do HCFMUSP
Mestre em Gastroenterologia pelo IBEPEGE - SP
Doutor em Cirurgia do Aparelho Digestivo pela FMUSP
Professor do Departamento de Gastroenterologia da FMUSP
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